Feeds:
Posts
Comentários

Novos tempos…

Mudança de trabalho.

Uma série de objetos que variam de importância empilhados em um canto.

Alguns desses irão para uma caixa, outros simplesmente ao lixo.

Desde um porta-retratos antigo, até rascunhos de reuniões esquecidos.

A antiga rotina fica ali deixada para que o próximo a pegue e arrume como bem quiser.

O caminho até o novo escritório agora é maior.

Pessoas, tempo, vultos. Tempo, pessoas.

Tudo intermediado por folhas amareladas pelo tempo de livros que nunca tive tempo para ler.

Em meio a isso, lembranças, pensamentos… ora tão próximos como se pudessem ser tocados, ora tão distantes como nuvens perdidas em um dia de ventania.

E assim a conversa deslizava por dentre goles, risos e olhares fugazes.

Entoado como o próprio jazz, uma mistura de diversos tons. Cores, sabores, talvez

É difícil explicar o que aconteceu até que eu estivesse aqui.

Nesse apartamento que diz tantas coisas e deixa tantas outras no ar.

Do sabor doce e macio do vinho, senti o gosto mais forte do whisky.

Com um toque suave que me fazia pedir por mais.

Depois disso, a música.

Estava imersa em pensamentos. Entre a descoberta do novo e o orgulho ferido de ter que dar o braço a torcer por dizer que preferia passar um tempo sozinha dias atrás.

Ria disso comigo mesma.

Quando fui tomada de meus sonhos por um beijo sorrateiro de quem chama a atenção.

Ri do afago, e retribui a altura. Nada mais justo do que um puxão no pescoço e um beijo que diz “sim, eu estou aqui”.

Do outro lado do rio

H. tinha por volta dos seus 10 anos de idade.

Era uma criança imaginativa, como todas as são nessa idade. Num lugar em que as distrações dependem justamente de quão longe vão seus pensamentos.

Morava em uma casa simples.

A casa ficava à beira de um grande rio.

No quintal, um grande varal de roupas balançava ao sabor do vento.

Por vezes empunhava uma espada feita de gravetos. Imaginava as roupas como uma tropa de exército e ele como o cavaleiro daquele que era seu castelo.

A grama verde reluzente brilhava com os raios de sol.

À beira do rio estava seu pai. Este pescava todos os dias.

Quando o menino chegava perto lhe contava histórias sobre o grande rio.

Falava sobre o gigantesco peixe que seu avô pescara, sobre as criaturas d’agua, a linda sereia que encantava os pescadores desavisados e muitas outras histórias.

Mas o que realmente intrigava H. era o que havia do outro lado do rio.

Imaginava monstros que jamais vira. Incomodando um reino tão grande quanto seus olhos jamais viriam. Onde haveriam cavalos brancos e seus cavaleiros correndo majestosamente pelos vastos campos.

Um dia subira em uma pedra alta. A pedra mais alta que havia por lá.

Porém só via a borda de um outro lado. Que pena. Não podia enxergar mais que isso.

Outro dia, seu pai o ajudara a construir um pequeno barco de madeira.

Dentro dele colocara seu boneco favorito. Com certeza ele voltaria para lhe contar que mistérios havia do outro lado do lago.

E assim o barco percorrera em direção ao distante. Fez uma continência ao boneco que jamais voltou.

E assim passaram-se os tempos.

H. tornara-se um homem. Plantava arroz, feijão, trigo. Tudo do seu lado do rio.

Agora a figura que ficava à beira do rio era a de H. em lugar de seu pai.

Mas H. era triste. Ainda não sabia o que havia do outro lado rio. Imaginava agora uma grande cidade com carros velozes. Mulheres bonitas e prendadas. Coisas de todo o tipo para se ver.

Lá sim ele seria feliz, pensava. E isso o fazia um homem triste.

Ao dia trabalhava com a cabeça ao longe. A noite sonhava com a outra margem do rio.

Uma voz dentro dele ecoava:

Rema, rema, rema…

H. resignado continuava a sonhar com o outro lado do rio.

Até o dia em que resolvera construir um barco e finalmente alcançar aquilo que seria sua felicidade.

A maior parte do dia e a maior parte de seus esforços era guardada para esse intento.

Em cada corte na madeira, em cada tábua pregada, havia uma imagem do outro lado do rio.

E assim chegara o grande dia.

Subiu em seu pequeno barco. Respirou fundo. E começou a remar.

A margem era distante e seu coração batia tão rápido que mal podia ficar em pé.

Chegando a metade de seu destino, percebeu que não havia criaturas d’agua, nem nenhuma bela sereia. Só havia a água, nada mais.

Continuou seu caminho, por todo lado só via água.

Até que do outro lado avistara finalmente algo.

Não sabia bem o que era. E assim foi chegando.

Na outra margem havia um menino.

Este brincava com um pequeno barco na margem do rio.

Não havia grandes cidades, nem carros barulhentos.

Apenas um menino, assim como ele o fora.

Sorriu.

Diante daquela cena girou os remos em direção ao seu lado do rio.

Satisfeito, voltou pra sua margem.

*Inspirado em “Al otro lado del río” (Jorge Drexler)

Acordo com a seguinte mensagem bipando no celular: Jantar na minha casa hoje?

Horas depois me vejo num apartamento que não é meu. A decoração era bastante detalhada, desde os tapetes bordôs no chão que constratavam com a brancura do piso até as almofadas coloridas em cima do sofá.

Conheci Alec algumas semanas antes. O local escolhido foi um barzinho cujo jazz suave embalava o ambiente. Refiro-me a escolhido, pois nos conhecemos através do mesmo hobbie de escrever em blogs. O local era aconchegante, pessoas conversavam tranquilamente enquanto bebericavam qualquer tipo de bebida. As mesas tinham tecidos delicados, regados de detalhes finos. A música, por sua vez, não era alta suficiente para incomodar as conversas que se seguiam, a cantora, uma mulher alta por volta de seus 30 anos de idade, possuía uma voz intimista mas de tom macio, como se fosse a música de fundo para o que acontecia ao seu redor.

Observava discretamente o local. Numa mistura de ansiedade e curiosidade, olhava desconfiada para todos os homens aparentemente desacompanhados do lugar em busca de um olhar tão perdido quanto o meu.

Hoje observando-o – enquanto este preparava o jantar – via nele algo tão familiar quanto misterioso. Não era a mesma busca de qualquer traço que o identificasse como daquela vez, na verdade não sei explicar o que realmente era…

Senti um toque no ombro. Olhei para trás e lá estava um homem pouco mais alto que eu. Sorriu, na indicativa de que era ele quem eu esperava.

Como soube? Não imagino.

Sentamos numa mesa próxima a cantora – ele sabia que assim como ele eu adorava música – então a proximidade com aquele som deixava o ambiente mais confortável para ambos. Foi uma sutileza que certamente me chamou a atenção. Diante disso sorri enquanto ele não olhava.

Pedi um vinho tinto suave. Ele, um whisky com gelo.

… continua…

Indícios do feriado

Na mesa, um copo de vinho pela metade.

No aparelho de som, a batida leve de um folk.

Era Dido.

À beira da cama, jaziam sapatos altos, estes satisfeitos por se mostrarem esbeltos apoiavam-se agora num canto.

No guarda-roupa descansava o vestido vermelho. Suas alças não encontravam mais ombros, nem seu tecido acariciava a pele.

A boca bebericava lentamente o vinho.

Gole a gole.

Enquanto isso a mão direita brincava com a taça, rodando-a em círculos. Brindando com o vento.

A mente distante. Perdida em pensamentos.

Memórias em veludo.

O vestido vermelho, antes imponente, sensual, sentia-se agora enciumado diante daquelas lembranças cujo toque era muito mais íntimo e caloroso.

O sabor forte do vinho tinto, almiscarado, porém elegante, misturava-se ao gosto dos beijos de outrora. Gosto de desejo, um sabor que a deixava sem ar.

Não sei o quanto era o vinho, a música, o ambiente, as lembranças, ou simplesmente ele.

Lembrei-me dos cabelos negros. Do olhar profundo, porém gentil. Do perfume marcante. Das horas compartilhadas que se transformariam em doces lembranças.

Olhei para a cadeira ao lado.

Naquele momento não havia ninguém mais com quem gostaria de estar.

Brindei como se ele estivese ali. Pois sabia que esse era o começo de algo que poderia vir a ser realmente grandioso.

Mudanças…

É estranho quando algo acaba.

Deixa as marcas de uma realidade que parece não ser mais verdade.

Um simples conto, sonho, ou história contada pelas mãos de outro alguém.

Não era difícil imaginar ele entrando por aquela porta. Ou sentado na poltrona da sala enquanto ria dos meus intempérios. Ou acordando de manhã ao meu lado me segurando para que não saisse de perto e quebrasse o aconchego daquele momento.

Ás vezes me esquecia que ele não estava ali e quando acordava a cama parecia tão maior. Não havia mais sinal do perfume que ele passava logo de manhã do qual eu não gostava muito. Hoje, cheiro de nostalgia. Algo que ainda consigo imaginar.

O tempo fez isso. Alterou meus sentidos para que se voltassem a ele.

Cada canto do apartamento trazia uma lembrança. Desde quando comemoramos a mudança para lá em meio a dezenas de caixa e com canecas de café cheias de um vinho gostoso (pois não conseguimos achar os copos naquela confusão) até discussões bobas sobre qual sabor de pizza era melhor naquele sofá do canto que sempre acabam em risos.

Por isso resolvi pintar o apartamento, dá-lo novas cores, uma nova vida. Troquei o branco triste das paredes pelo azul. Nas paredes do corredor um vermelho de uma cor intensa. E assim percorri cada cômodo, dando um novo toque a cada detalhe.

Por fim, eu mesma estava coberta de tinta. Creio que nunca estive tão colorida em toda minha vida.

O vazio daquele lugar deixado pelos móveis dispostos em um pequeno cômodo deveria me incomodar. Mas não.

Restava só o cheiro e a cor do novo. Naquele lugar vazio que somente esperava.

Peguei o violão deixado de canto por longos meses. Dedilhei. Ligeiramente fora de tom.

Comecei baladas antigas, trechos da minha vida. Por fim, decidi-me por uma música que há tempos não ouvia, “Your heart is an empty room”. Se isso fosse algum tipo de série, não haveria melhor música.

The flames and smoke climbed out of every window
And disappeared with everything that you held dear
And you shed not a single tear for the things that you didn’t need
Cause you knew you were finally free

Cause all you see is where else you could be
When you’re at home out on the street
Are so many possibilities to not be alone

Escolhemos uma mesa perto da janela. O som do piano era agradável e tornava o ambiente aconchegante.

Naquela época ainda estava com ele, mas a verdade é que eu realmente não esperava nada daquele encontro, a não ser histórias de sua vida amorosa ou algo que o valha.

Pedi um Café Vanilla e ele um expresso. Sempre gostei do cheiro de café quente. Aquela mistura com baunilha deixava o aroma ainda mais agradável. Café, piano e um homem charmoso a minha frente, parecia um cenário daqueles filmes antigos.

A conversa era casual, divertida. Entre pequenos goles de café, sorrisos, histórias… uma mistura paradoxal de nostalgia com o novo. Difícil explicar.

– Sabe… parece que esse tempo todo tentei não pensar em você, fugir… – diz ele depois de um longo gole de café

Quase cuspi o café ao ouvir essas palavras. O QUE? Era a única expressão que ecoava dentro de mim. Disfarcei. Ou pelo menos tentei.

– Hã… acho que não te ouvi bem. – foi tudo que consegui pensar em dizer naquele momento

Eu sempre tive uma queda por você, sabe… Como você nunca demonstrou nada por mim eu preferi não contar nada. E de qualquer forma, sabia que o destino sempre te trazia até mim. Mas agora é diferente.

São nessas horas em que o momento pára por um segundo e você pensa em mil coisas. Por que agora? Por que nunca me disse? Por que eu nunca percebi? O que eu faço? Me perdi em meio aos mais nebulosos pensamentos, envoltos por aquela névoa de baunilha e café.

– Vou me casar daqui alguns meses, então achei que deveria te contar isso…

Quase cuspi o café novamente ao ouvir isso. Era difícil assimilar tudo aquilo em uma simples xícara de café. Não sabia o que dizer, ou se havia algo a dizer. Fiquei ali, num estado de torpor tentando entender o que havia acontecido.

Por fim, voltei a mim. Ouvi sobre seus planos, quem era a tal noiva, e o que faria depois. Ainda perdida em pensamentos. Não sei quantas palavras pensei em dizer, não sei nem ao certo o que respondi em relação ao que ele me contava.

Assim os minutos passaram.

Chegada a hora de ir.

Nos despedimos como sempre.

Era estranho o pensamento de que tudo mudaria a partir daquele ponto.

Deu uma última olhada para trás.

– Afinal, o que nós fomos? – disse ele sorrindo

– Eu diria… que uma série de encontros e desencontros…

E assim ele se foi.